As ditaduras e a Imprensa

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O Silêncio mata a Democracia, mas uma Imprensa Livre fala!

Liberdade de Imprensa

Texto de Ludwig von Mises.

misesA liberdade de imprensa é um dos pontos fundamentais de um país de cidadãos livres. É um dos itens essenciais do programa político do velho liberalismo clássico. Até hoje, ninguém conseguiu apresentar objeções convincentes contra a argumentação de duas obras clássicas: Areopagitica, de John Milton, em 1644, e On Liberty, de John Stuart Mill, em 1859. Imprimir livros proibidos é o sangue vivo da literatura.

A imprensa livre só existe onde os controles dos meios de produção é privado. Na comunidade socialista, na qual todos os meios para publicar e as máquinas impressoras pertencem e são acionadas pelo governo, não pode existir imprensa livre. O governo determina sozinho quem deve dispor de tempo e de ocasião para escrever, bem como o que deve ser impresso e publicado. Comparado com as condições predominantes na Rússia soviética, até a Rússia dos czares, retrospectivamente, parece um país de imprensa livre. Quando os nazistas realizaram o famoso auto-de-fé do livro, agiram perfeitamente com o que preconizou um dos maiores autores socialistas, Cabet1.

Como todas nações estão caminhando para o socialismo, a liberdade dos autores desaparece pouco a pouco. Torna-se cada dia mais difícil para alguém publicar um livro ou artigo cujo conteúdo não agrade ao governo ou a fortes grupos de pressão. Os hereges não são, no entanto, “liquidados”, como na Rússia, nem seus livros são queimados por ordem da Inquisição. Também não há retorno ao velho sistema de censura. Os que se consideram progressistas dispõem de armas mais eficientes. Seu principal instrumento de opressão é boicotar autores, organizadores, editores, livreiros, impressores, anunciantes e leitores.

Qualquer um é livre para abster-se de ler livros, revistas e jornais que lhe desagradam, assim como para recomendar a outros que evitem esses livros, revistas e jornais. Mas a coisa muda de figura quando algumas pessoas ameaçam outras com graves represálias, caso estas não deixem de patrocinar certas publicações e seus editores. Em muitos países, os editores de jornais e revistas ficam apavorados com a ameaça de boicote por parte dos sindicatos. Evitam discussões abertas sobre o assunto e tacitamente cedem às ordens dos líderes sindicais2. Esses líderes “trabalhistas” são muito mais delicados do que as majestades reais imperiais das épocas passadas; não admitem gracejos. Sua instabilidade rebaixou a sátira, a comédia e a comédia musical do verdadeiro teatro e condenou os filmes à esterilidade.

No ancien régime3 os teatros tinham liberdade para apresentar as zombarias de Beaumarchais4 sobre a aristocracia e a ópera imortal composta por Mozart. Sob o segundo império francês5, a “Grã Duquesa de Gerolstein“, de Offenbach e Halévy, parodiou o absolutismo, o militarismo e a vida na corte. O próprio Napoleão III e outros monarcas europeus divertiam-se com a peça que os ridicularizava. Na época vitoriana, o censor dos teatros britânicos, Lord Chamberlain, não proibiu a exibição das comédias musicais de Gilbert e Sullivan que faziam pilhérias de todas as veneráveis instituições do sistema de governo britânico. Os lordes lotavam os camarotes enquanto, no palco, o Conde Montararat cantava: “The House of Peers made no pretence to intellectual eminence” (A Casa dos Nobres não tem nenhuma pretenção a destaque intelectual).

Hoje em dia, não se pode fazer a mínima paródia no palco a respeito dos poderes existentes. Nenhuma observação desrespeitosa sobre sindicatos, cooperativas, empresas dirigidas pelo governo, déficits orçamentários e outros aspectos previdenciário é tolerada. Os líderes sindicais e os burocratas são sagrados, e o que resta para comédia são os assuntos que tornaram a opereta e afarsa de Hollywood execráveis.

Fonte:
MISES, Ludwig von. A Mentalidade Anticapitalista. Tradução: ABREU, Carlos dos Santos. 2013. Campinas:VIDE Editorial (sob licença do Instituto Liberal – RJ). Pgs. 89-91. ISBN 978-85-62910-22-7.


1. Cf. Cabet, Voyage en Icarie, Paris, 1848, p. 127.
2. Sobre o sistema de boicote estabelecido pela Igreja Católica, cf-P. Blanshard, American Freedon and Catholic power, Boston, 1949, pp. 194-198.
3. O ancien régime (o “antigo regime) era o sistema social e político, monárquico, aristocrático estabelecido na França desde, aproximadamente o século XV até o final do século XVIII, quando foi derrubado pela Revolução.
4. Beaumarchais autor das peçasO Barbeiro de Sevilha, As Bodas de Fígaro e A Mãe Culpada, peças consideradas subversivas pelos governos imperiais da época e citadas pelos historiadores como instigadoras da Revolução Francesa.
5. O retorno á monarquia institucional na França, após as guerras napoleônicas que se seguiram ao fracasso da Revolução

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