A violência como método para conseguir a liberdade

luta-armada02

Em seu ensaio sobre o desafio político, Gene Sharp lista quatro outros meios de se buscar a libertação de ditaduras repressoras. O primeiro desses meios é a luta armada.

Compreensivelmente, reagir às brutalidades, torturas, desaparecimentos e assassinatos, as pessoas, com frequência concluíram que só a violência pode acabar com a ditadura. Vítimas enraivecidas algumas vezes organizaram- se para lutar contra os brutais ditadores com qualquer capacidade militar e violenta de que pudessem dispor, apesar das probabilidades serem contra elas. Essas pessoas, muitas vezes, lutaram bravamente, com um grande custo em termos de vidas e sofrimento. Suas realizações foram por vezes notáveis, mas eles raramente ganharam a liberdade. Rebeliões violentas podem desencadear uma repressão brutal que, frequentemente, deixa a população mais indefesa do que antes.

Fonte: SHARP, Gene. Da Ditadura à Democracia. Uma estrutura conceptual para a libertação . Tradução: FILARDI, José A. S. 4ª Edição. São Paulo: pg. 8, 9. 2010. ISBN 1-880813-09-2.

O desespero diante do sofrimento sem esperança de alívio– sempre ele- é a verdadeira mola mestra que move o povo a se envolver nesta modalidade de protesto.

Duas técnicas de resistência podem ser enquadradas neste método:

  1. a luta armada; e,
  2. guerra de guerrilhas

Quanto à primeira, Gene ressalta que esta é a área em que, quase sempre, os opressores têm a superioridade tanto em equipamento militar como em tamanho das forças militares.

Devido a esta prevalência de poder bélico da ditadura, na maioria das vezes, são os democratas rebeldes que sofrem com a repressão que se torna muito mais cruel em resposta ao movimento popular.

Como afirma Sharp:

Não importa quão longa ou brevemente esses democratas possam continuar [na luta armada contra a ditadura], eventualmente, as duras realidades militares tornam-se inevitáveis. Os ditadores têm quase sempre superioridade em equipamento militar, munições, transportes, e tamanho das forças militares. Apesar da bravura, os democratas não são (quase sempre) páreo para eles.

Fonte: Sharp, Op. cit. pg. 9

Uma outra forma violenta que alguns buscam para tentar a libertação de um regime opressor é através da guerrilha. Esta forma de luta, embora exija uma análise teórica e avaliação estratégica, o que implica na necessidade de algum planejamento por parte dos democratas, acaba produzindo um número muito grande de vítimas entre o próprio povo. Além disso, no combate à guerrilha feito pelo governo, populações inteiras podem ser forçadas a se transferir do lugar onde vivem com “imenso sofrimento humano e deslocamento social”1.

Mesmo quando bem sucedida, a luta por guerrilhas tem como consequência tornar o regime atacado mais ditatorial e se os guerrilheiros acabam prevalecendo e vencendo os vencedores poderão criar um regime ainda mais ditatorial do que o vencido não só por ter sob seu comando uma enorme força parmilitar, mas também por que na luta contra a ditadura , a guerrilha acaba destruindo grupos e instituições independentes que são vitais para o estabelecimento e a manutenção de uma sociedade democrática2.

Conforme confirmam a experiência brasileira do período após o contra-golpe de 1964, mais ainda, da inteira América Latina durante o turbulento período que se seguiu à revolução comunista em Cuba, a conclusão de Sharp apresentada neste trecho de seu ensaio sobre as técnicas de libertação disponíveis para os povos sob opressão ditatorial, a violência como método, só resulta em mais sofrimento e opressão do povo, sendo de muito pouca – quando de alguma – eficiência em atingir o alvo da liberdade democrática3.

Num próximo post, comentarei a opinião de Sharp a respeito de uma segunda técnica de resistência a uma ditadura, que tem sido muito citada pelos opositores do bolivarianismo moreno do PT e sua linha auxiliar (PSOL, PSTU, PCdoB etc.): a intervenção, ou golpe militar.


1. Sharp, Op. cit. pg. 9
2. Sharp, Op. cit. pg. 9
3. Uma constatação interessante que tive foi a procurar no Google-Imagens uma imagem para ilustrar a luta armada como conceito de Gene Sharp de rebelião democrática, ou seja um movimento popular visando derrubar uma ditadura para em seu lugar estabelecer um governo democrático. Todas as imagens disponíveis na pesquisa se referiam à luta armada no Brasil ou de comunistas em outros países. Dificilmente, quando um comunista se empenha na luta armada, ele está pensando em estabelecer um regime democrático em substituição a uma ditadura. O que ele invariavelmente busca é firmar sua própria ditadura, ampliando o sofrimento do povo que está subjugando. Embora se trate de uma distorção torpe do conceito de Gene Sharp, mesmo assim confirma a conclusão do autor de ensaio que estamos estudando, pois tais exemplos de luta armada só levaram – ou tentaram levar, no caso dos terroristas tupiniquins – a uma ditadura pior do que a que ela conseguiu derrubar.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s